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novembro 11, 2011

Um post diferente – sobre a amizade

     O ser humano, por vezes, se acha imortal. Age como se fosse imortal. E meio sem querer pensa assim sobre os entes queridos. Sobre os animais de estimação. Esquecendo-se de que a vida é algo frágil e finito. 

     Hoje foi um dia difícil para as pessoas da minha família. Já tivemos muitos bichos de estimação: cães, cavalos, gatos, etc. A vida no interior tem dessas coisas. Alguns duraram muito. Outros pouco tempo. Mas hoje perdemos mais do que um animal de estimação. Perdemos um verdadeiro amigo. 

     Izzy estava conosco há quase nove anos. Veio para nossa casa depois que perdemos outro cachorro, vítima de um ataque de uma arma de chumbinho. Como meu irmão menor era ainda pequeno, minha mãe tratou logo de procurar um novo filhote para animar seu caçula. Assim, um tio meu, naquela mesma noite, trouxe o Izzy para nós. Parece que foi ontem. De verdade.

     Izzy era um cachorro esperto. De verdade. Nunca havíamos tido um animal assim. Quase racional eu me atreveria dizer. Quem o conheceu sabe que é verdade. Lembra quando dizem: “esse aqui só falta falar”? Izzy era a prova de que a frase é verdadeira. Com os olhos ele já dizia se estava bem ou se havia algo de errado.

     Nunca vou me esquecer de como ele recepcionava qualquer pessoa de casa que voltava de algum lugar da rua. Ele vinha quase que rebolando de felicidade soltando um latido peculiar. Não sei quem vai me recepcionar quando eu voltar amanhã da faculdade. Vai ficar aquele vazio. Ele estava sempre esperando alegre na entrada de casa quando ouvia o carro chegar. Izzy era o xodó de casa. De todos.

     Há três dias ele brigou com um cachorro bem maior que o seu porte. Outro dos nossos cães. Um dos dois cães de rua que adotamos. Quando vi, ele estava tentando se defender, em vão. A cena não me sai da cabeça. Gritei e o cão maior saiu de cima do Izzy. Ele estava literalmente arrebentado. Chamamos o veterinário. Foram muitos pontos no pescoço dele. Não era bonito de ver. Durante três dias fizemos o possível. Cuidamos dele. Mas a situação só ficava pior. Hoje pela manhã ele estava praticamente entregue. Estava sem forças por não conseguir comer e por ter perdido muito sangue. Mais uma vez recorremos ao veterinário. Foram mais remédios e antibióticos. Tudo em vão. Agora há pouco ele deu um último e alto suspiro que doeu no coração

Um detalhe do acontecimento de ontem de noite: Depois que o Izzy morreu (algo tipo 5 segundos depois), nosso gato entrou na sala onde ele estava. Os dois se davam bem. O gato foi criado com Izzy junto dele sempre. Mas não havia chegado perto do Izzy nesse estado em momento algum antes disso.  Ele entrou lá naquela hora. Quando Izzy morreu.  Até hoje de manhã não se ouviu nada dos outros cães. Nem o canário da mãe cantou. Nem o gato ficou miando por aí. Foi uma espécie de luto coletivo entre os animais da casa. Izzy era demais.

     Provavelmente haverá alguém que acha tudo isso um exagero. Mas haverá alguém que teve ou tem um amigo assim e me entenderá. Penso que devo essas palavras a ele como símbolo dessa amizade e companheirismo. Ele merece.

     Obrigado pelas memórias, bichano.

     Sentiremos a sua falta.

agosto 30, 2011

#8

“Sinto-me sonolento
Mas consciente
Penetrado por uma estranheza conhecida
Um vazio que vem
Vai
E volta
Sem convite ou sinal
Diferente e igual
Pois toda volta é camuflada de outra forma
Toda inquietação tem a mesma raiz
Todo silêncio tem o mesmo luto
O mesmo pesar
A mesma maldição, talvez
Que faz com que os pés se mantenham nervosos
Em movimento
Como somos
Desde o berço
A sós
Com nós mesmos
Como companhia
Nas noites onde nenhuma’lma viva
Se arriscaria sair
Para atear fogo na solidão”

maio 17, 2011

Vocação

Entrou no ônibus que levava ao seu bairro – seria mesmo esse? Ainda que tenha perguntado a outras pessoas na parada, ficava na dúvida. Era da sua índole. Revisava mentalmente a lista das compras que precisava fazer no mercadinho da esquina da sua rua antes de ir para casa. Tivera um dia cheio. Congestionamento, trabalho, banco, filas, contas. Depois teve que deixar o carro na oficina. Não estava mais acostumado a andar de ônibus. Tentava se lembrar da última vez em que entrara em um, mas não conseguia. A cabeça doía.

Olhou ao redor, para as pessoas apertadas, e viu uma ex-namorada dos tempos em que ainda se considerava jovem. Ela não o viu. Nem sabe ao certo quando ela entrou no ônibus. Ou já estava lá quando ele embarcou? Nem sabia há quanto tempo não a via. Nem sabia ao certo se ainda lembrava a sua voz ou do seu perfume. Lembrava? Nunca imaginaria que os dois acabariam no mesmo bairro após todos esses anos. “Estranho como as pessoas entram e saem de nossas vidas”, pensou. Havia sido um relacionamento bom, mas que não deu certo assim, sem querer. Sabia desde então que relações interrompidas machucam, mas que não temos tempo para infortúnios. É preciso saber largar. Deixar certas coisas para trás.

Pensou na vida. Percebeu que situações assim o lembravam de coisas passadas, boas e ruins. E que entre todos esses dias e anos, vividos e revividos, a cabeça era ocupada por coisas novas, enquanto se esquecia de outras. Às vezes coisas não muito importantes. Às vezes sim. Lembrou-se de quando viu, pela primeira vez, sua esposa. Quando viu nascerem os seus filhos. Paixões e sonhos que ficaram para trás e foram substituídos por outros novos. Percebeu que na vida não conquistamos independência. Conquistamos dependência. Queremos conforto, confiança, aconchego. Mas, no final, tudo o que procuramos é alguém para dar as mãos durante o dia e juntar os pés à noite. Corremos tanto que nos esquecemos de outras coisas, por vezes mais importantes, e deixamos de lembrar que é preciso ter vocação para tudo nessa vida, inclusive para o amor.

Olhou através das janelas, para fora. Era a sua parada. Ao sair percebeu que ela não estava mais no ônibus. “Pessoas vêm e vão”, riu consigo mesmo. Apesar de tudo, se sentia bem. Sentia-se feliz. Correu novamente apressado. Mais uma vez se lembrou das compras que precisava fazer. Era hora de ir ao mercadinho. Esperava não se esquecer de nada.

——-

Obs.:Texto feito para uma das aulas, na Unisinos. Resolvi postar aqui.

Entre as poesias, uma crônica.

março 9, 2011

#7

O tempo tem passado

Impiedoso e cheio de manhas

Mas certeiro e

Senhor de si

.

Tem deixado os ossos cansados

E a memória ocupada

O coração inquieto ao relento

Descoberto contra as intempéries

Dos dias

.

Tem levado as alegrias

Que vem, cada vez mais,

Em menores doses

Em goles sorvidos lentamente

Quase como que com dor

Fazendo assim,

Perderem o seu propósito

.

Quase tenho perdido as esperanças

Que um dia floresceram em mim

E nem ao certo mais sei como são

Pois os dias parecem iguais

Longos demais

Uma reprise desnecessária

.

A calma reside distante

E a paz não encontra com o espírito

Dias de cão

De solidão atroz

Indesejável sensação

.

Mas há sempre alguém

Em algum lugar

Disposto a não te deixar entregar as pontas

No final das contas

E por isso é preciso estar aberto até o final

Para o que vier

Pois para o amor

É preciso estar alerta.

janeiro 19, 2011

Certezas do amor

#6

“Como ousas dizer “eu te amo”?

Assim, sem pudor

Amor não é palavra

Para ser usada em vão

O amor não é saudação

Ou cordialidade

 

O amor não morre ou se apaga

É uma ferida sempre aberta

Que não dói, mas precisa de cuidados

O amor não serve ao ‘achismo’

Ele é apenas certeza

 

Só sabe quem sente

Se não for assim

É só da boca pra fora

É elogio

Mas amor não é elogio

 

Amor é verdade

É estar presente

Sempre sentido saudades

É cuidar

E estar sempre ao lado mesmo na distância

 

O amor não vai e vem

Ele não dá voltas

É constante

Se interrompido, certamente deixou marcas

Memórias vivas

De algo que não se explica

 

Se você realmente ama

Quem te deu as certezas do amor?”

dezembro 20, 2010

#5

“Tenho sido menos poeta

Vivi mais para aprender

Sobre a vida

Abrindo feridas e

Esperando-as fechar

Aprendi a amar sem medo

Sem medida

Aprendi a ser feliz

Ao teu lado

Ao menos um pouco

Todo dia

E a sorrir, por favor

Por te fazer companhia

Nos altos e baixos

do amor”.

dezembro 20, 2010

#4

“Saem para a rua

A encarar seus próprios medos

Despidos de pudores

Dois amantes a seus postos

Lado a lado

Passeantes distraídos que

Possuem todo o tempo do mundo

E o caminho aberto a seus pés

Naturalmente sincronizados

Buscam o rumo do regresso

Sem querer encontrar

 

Há canções

Ecos de sensações conhecidas

Redescobertas

Tudo o que há o direito de haver

 

Dois pólos que se completam

Variáveis em ponto de colisão

Extremos opostos

Em fusão

Um leva o outro

Consigo

A todo o momento

Em todo lugar

 

Não se sabe mais onde começa um

Nem onde termina o outro corpo

Unidos num mesmo vôo

Mas não aqui de passagem

Amarras soltas

Contra o vento

Agora

Em paralelo

Rumos

Sem deixar rastros

Sem final ao certo

Apenas um livro

Em aberto”.

 

dezembro 20, 2010

#2

“Há grande parcela de divino nela

Algo distinto

Outra seção

Na inexistência do singular

Transformada em plural

Teu sorriso faz sorrir

Apenas pode ser o que é

Em poucos instantes, mulher,

Criastes sonhos e laços

Da maneira mais bonita

Com palavras amigas

E ao ficar por aqui,

Terminas por fazer sonhar

Desvendar os cantinhos do amor

Todas as mais intrigadas formas

Dos poetas e de suas leis

Das canções e das frases perfeitas

Das melodias que embalam teu corpo

Tens algo de magnético

Ou sobrenatural

Tens algo de doce, criatura

Tens a mim, meu coração, minhas credenciais

Meu tempo, todos temporais

Conheço cada pedaço teu

Sei da sorte de poder estar ao teu lado

Ver com outros olhos esse mundo

É ter te desejado, pedido nada,

Mas ter ganhado tudo”

dezembro 20, 2010

#1

“Nós

Entre tempos e momentos

Donos desta beleza

Que só acontece quando estamos juntos

Entregamos-nos um ao outro

Passando a caminhar

Redescobrimos lugares e situações singulares

Como as lágrimas que caíram no papel e

Transformaram-se em letras e

As letras em sílabas

Que, por sua vez, transformaram-se em palavras

E as palavras, em bela poesia

Sobre a tua verdade e

Nossa música que toca

Minha boca na tua

 

Poder te contemplar

Ao despir-te

Ver-te nua

Sem barreiras

Apenas o que simplesmente és

Pó desse vento

Folha dessa estação

Lava-me a lama

Sem culpa

Sem medo

Sem dor

Como uma brisa que passa

Quase despercebida

Mas que ali está presente

 

Nós num leito

Num curso

Numa única corrente

Apenas um e dois

Dois em um

Matemática desnecessária para tal cálculo

Tão simples de compreender.”

 

maio 7, 2010

À Granel

#3

Nasceu para ser poeta
Perdeu-se na hora certa
Deu de cara com uma porta aberta
Ao se encontrar no amor

Era um livre espírito
Que procurava entender
Tentava se estender
Fixar raízes num lugar cheio de cor

Batia as asas
Esperando chegar a algum lugar
Esperava se encontrar
Onde não se permitisse sentir dor

Não tinha medo da luz
Ou sequer medo de viver
Apenas queria se surpreender
Ao sentir o sabor

Da vida como ela é

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