Vocação
Entrou no ônibus que levava ao seu bairro – seria mesmo esse? Ainda que tenha perguntado a outras pessoas na parada, ficava na dúvida. Era da sua índole. Revisava mentalmente a lista das compras que precisava fazer no mercadinho da esquina da sua rua antes de ir para casa. Tivera um dia cheio. Congestionamento, trabalho, banco, filas, contas. Depois teve que deixar o carro na oficina. Não estava mais acostumado a andar de ônibus. Tentava se lembrar da última vez em que entrara em um, mas não conseguia. A cabeça doía.
Olhou ao redor, para as pessoas apertadas, e viu uma ex-namorada dos tempos em que ainda se considerava jovem. Ela não o viu. Nem sabe ao certo quando ela entrou no ônibus. Ou já estava lá quando ele embarcou? Nem sabia há quanto tempo não a via. Nem sabia ao certo se ainda lembrava a sua voz ou do seu perfume. Lembrava? Nunca imaginaria que os dois acabariam no mesmo bairro após todos esses anos. “Estranho como as pessoas entram e saem de nossas vidas”, pensou. Havia sido um relacionamento bom, mas que não deu certo assim, sem querer. Sabia desde então que relações interrompidas machucam, mas que não temos tempo para infortúnios. É preciso saber largar. Deixar certas coisas para trás.
Pensou na vida. Percebeu que situações assim o lembravam de coisas passadas, boas e ruins. E que entre todos esses dias e anos, vividos e revividos, a cabeça era ocupada por coisas novas, enquanto se esquecia de outras. Às vezes coisas não muito importantes. Às vezes sim. Lembrou-se de quando viu, pela primeira vez, sua esposa. Quando viu nascerem os seus filhos. Paixões e sonhos que ficaram para trás e foram substituídos por outros novos. Percebeu que na vida não conquistamos independência. Conquistamos dependência. Queremos conforto, confiança, aconchego. Mas, no final, tudo o que procuramos é alguém para dar as mãos durante o dia e juntar os pés à noite. Corremos tanto que nos esquecemos de outras coisas, por vezes mais importantes, e deixamos de lembrar que é preciso ter vocação para tudo nessa vida, inclusive para o amor.
Olhou através das janelas, para fora. Era a sua parada. Ao sair percebeu que ela não estava mais no ônibus. “Pessoas vêm e vão”, riu consigo mesmo. Apesar de tudo, se sentia bem. Sentia-se feliz. Correu novamente apressado. Mais uma vez se lembrou das compras que precisava fazer. Era hora de ir ao mercadinho. Esperava não se esquecer de nada.
——-
Obs.:Texto feito para uma das aulas, na Unisinos. Resolvi postar aqui.
Entre as poesias, uma crônica.
Gostei bastante desse. Bem típica vida do homem hoje em dia…
Realmente as coisas entram e saem das nossas vidas de uma maneira tão fácil e estranha que nos assusta mesmo, e então o que só nos restam é as boas ou más memórias… É. A vida é muito complexa. hahaha. Beijos.